quinta-feira, 6 de maio de 2010

Essa vaga é minha. Ninguém me tira daqui!

Criar filhos é uma das sensações mais indescritíveis do mundo. Principalmente quando eles não são do seu sangue, não foi você que colocou no mundo. Quando é assim, a gente tem um sério adversário: o próprio pai biológico que, mesmo que seja ausente, talvez tenha mais direitos que você. Brigar por essa vaga, nessas circusntâncias, torna a missão ainda mais saborosa.

No meu caso, apesar de ter convivido com minhas duas filhas de criação menos tempo do que queria, mas muito mais tempo do que o progenitor, sempre me bateu um certo medo de descobrir que, por mais que eu tenha feito tudo direitinho, elas gostassem mais dele. Ou gostassem igual. Por isso nunca tentei bancar o pai e sim o amigo, aquele que ouvia mais do que falava, que criticava com bom senso, que não punia mas orientava, que nunca gritava mas mostrava sua indignação de forma discreta, que nunca impunha, apenas discutia democraticamente. Em alguns momentos sei que até escorreguei nisso e ultrapassei os limites da minha autoridade. Mas todas as vezes em que isso aconteceu foi por um bom motivo: por me preocupar demais e amar essas meninas.

Eu nunca quis que elas me chamassem de pai. Talvez pudesse chocar o outro, criar algum desconforto. Por causa delas, sempre frequentamos a casa dos avós, pais dele, e isso evitou situações que poderiam ser constrangedoras diante de uma família que não era minha. Nesse ambiente, até mantinha certa distância em termos de tratamento com elas para não despertar ciúmes. Hoje vejo o quanto eu queria que elas me chamassem de pai tamanho o amor e carinho que sinto emanar de seus corações e do meu, reciprocamente.

Ao ser comunicado do casamento da mais velha, veio à mente a minha primeira preocupação: quem vai entrar com ela na igreja? Será que eu poderia brigar por isso? Será que tenho esse direito? Deixei-a decidir! E a decisão não poderia ser mais sensata - "entro com um de cada lado". Mas ao vê-la caminhar em nossa direção, entendi que isso significava uma divisão apenas de acomodações, não de sentimento. Entendi pelo seu olhar que, naquele momento, para ela existia apenas uma pessoa ali. E senti que esse pai verdadeiro era eu.

Eu tinha 26 anos e elas 3 e 6 quando as conheci. Hoje elas tem 22 e 25. Foram 10 anos juntos sob o mesmo teto e até hoje nos vemos e falamos constantemente. Levar a mais velha ao altar naquele dia me fez ter a certeza de que sou o único pai - pelo menos o único que deu amor, carinho, companheirismo, compreensão e conselhos. Fui o único que presenciou seus momentos mais importantes e estava ao lado delas quando precisaram. E acredito que ainda seja o único a receber ligações quando precisam de um ombro amigo.

Uma coisa é certa: a explicação do porque tenho duas filhas nessas idades, aos 45 anos, já não é mais necessária há muito tempo - são minhas filhas e ponto final. O medo de descobrir de quem elas gostam mais, também já não existe - essa certeza carrego comigo e ninguém me tira. E o mais importante: a emoção que senti sentado diante da capela é o sentimento mais forte que já tive nessas quatro décadas de vida. O que elas me dizem com seus olhares e atitudes me dão a certeza de que essa vaga de pai é, sempre foi e sempre será minha. Ninguém mais me tira!

Obrigado meninas por terem aparecido na minha vida tão cedo e me ensinado as delícias de ser pai.

7 comentários

Juliana disse...

linda declaração de amor....a vida é realmente um aprendizado e ninguém cruza nossos caminhos por um simples acaso...parabéns pela sua sabedoria...

Thata disse...

estou sem palavras..vc eh maravilhoso..minha fortaleza!!!Vou estar pra sempre do seu lado e perto de vc..isso ninguem pode mudar..o amor vem do coracao..e ele eh soh meu,ninguem tira..ninguem muda!Te amo pra sempreee

Karina Sensales disse...

Como ouvi outro dia num programa: família é quem nos dá apoio quando precisamos. Não importa o sangue ou a preferência, o importante é o que fazemos e o que sentimos em troca. Parabéns pelo casamento da filha!
Um abraço
Karina

Rafael S.Thiago Hadlich disse...

O que eu mais escutei e escuto na vida, sobre esse assunto, é que pai/mãe é quem cria. Os laços afetivos criados ao longo de uma vida de criação e dedicação são para sempre. Sobre o pai biológico fica um sentimento, digamos, instintivo mesmo, pelo simples fato de ser o pai verdadeiro, um dos responsáveis por colocar essa pessoa no mundo, não da pra ficar indiferente. Parabéns pela linda declaração de amor e, com todo respeito, parabéns pela linda filha. Abraços!

Mirian disse...

Taí... eu sempre disse que um homem que desperta o amor de uma criança de 1 ano e 6 meses,como aconteceu com a minha filha que te ama até hj,só pode ser um homem muito especial... E o teu amor de pai vai mundo além das explicações desse pequeno mundo... Isso me encanta !!

aldine disse...

Acompanhei esse amor e admiração por algum tempo e sei o quanto este amor fez da minha amiga-irmã tudo o que ela é hoje!!Realmente você faz parte da construção desta mulher linda, segura e maravilhosa que é a Thaysse. Que Deus continue a iluminar esse amor fraterno conquistado por vcs durante toda uma vida!

Anônimo disse...

Eu já vivi essa experiência e sei o quanto é valioso este amor conquistado com medo, insegurança... Mas no final o resultado nos traz somente alegrias e felicidades!!! Que Deus continue a iluminar esse amor fraterno conquistado por vcs durante toda uma vida!

Postar um comentário