domingo, 14 de março de 2010

O sutiã da hipocrisia

Seios? Que seios?

Tem horas em que o brasileiro não sabe olhar pro próprio umbigo. Durante a semana inteira vimos em todas as mídias a exagerada atenção dada à roupa transparente da primeira dama da frança, Carla Bruni. Todo esse escarcéu foi debatido como assunto sério em programas matinais comandados por louras insossas e até nos dominicais sem conteúdo (o Fantástico até debateu a questão). E eu me pergunto: pra que tanta preocupação com os seios que mal apareciam sobre o recatado vestido (eu mesmo só vi o relevo dos mamilos)? O país que mostra bunda e sexo até em novela das seis ficou hororrizado com a ousadia da ítalo-francesa? As peladonas da sapucaí não chamaram tanta atenção, né? Tenha dó!

O que me irrita profundamente é as pessoas apontarem defeito nos outros e não saber se olhar no espelho. A senhora Sarckozy estava praticamente coberta dos pés à cabeça - afinal vestido como aquele, no Brasil (veja a foto), sem nenhum decote ou fendas, é digno de madames recatadas e senhoras pudicas (e olha que nem elas se vestem assim). E só porque ela estava sem sutiã causou essa "polêmica" toda. Muita falta do fazer ou dizer ou publicar.

Aqui no Brasil artistas fazem sexo simulado na novela das oito e ninguém comenta no dia seguinte. A dona Luciana Gimenez promove desfiles de lingerie em seu programa com modelos quase nuas (80%) e não sai uma linha publicada em lugar nenhum. Os BBB (Bando de Boçais Brincando) se embebedam, dançam e se engalfinham em performances dignas de filmes pornô e nenhum "especialista" aparece dando entrevista sobre a questão em qualquer programa. Agora bastou uma primeira dama usar uma roupa daquela pra causar alvoroço. O que foi, epidemia de hipocrisia, de repente? Alvoroço sim seria se Dona Marisa Lula aparecesse daquele jeito!

Aliás, o que não falta nesse país é um bando de hipócritas que, por falta de assunto, elege algo fútil e banal pra se ocupar. E culpo a mídia por dar tanto espaço pra esse tipo de coisa e prolongar a discussão. Pra provar isso, outro assunto que provocou faíscas daqui e dali: o anúncio de Eike Batista como o oitavo homem mais rico do mundo. Bato palmas para o que Luma de Oilveira disse essa semana. Questionada sobre a ascenção de seu ex-marido, ela respondeu: "Gente, o brasileiro vibra quando um jogador de futebol se torna o melhor do mundo. Porque não comemorar também quando esse vencedor é um empresário?" É que num país de miseráveis (culturalmente) ser rico é defeito e pecaminoso. Toma cambada!

Infelizmente aqui no Brasil se perde muito tempo com besteiras - o vestido da Bruni, a coça do Imperador Adriano na namorada, a famosa-quem Geysi Arruda, quem é mais rico ou mais pobre nesse mundo ou quem vai pro paredão no BBB. Se fosse diferente o Brasil poderia ser melhor não só economicamente, mas culturalmente também. Ah, desculpa! Esqueci que o país não tem interesse em investir nessa área.

6 comentários

Normann Kalmus disse...

ótimo texto.

é este nosso povinho de merda que fica assistindo a sacanagem explícita do BBB, aplaudindo congressistas ladrões, votando em troca de uma cestinha básica e esquece dos reflexos de seus próprios atos, dos estacionamentos em local proibido, das propinas aos guardas...

o que estamos fazendo para combater isso? damos mais IBOPE para tvs, quanto mais safadeza mostrarem e depois reclamamos da moral da juventude. Hipócritas compulsivos.

Anônimo disse...

Como sempre, muiot bom artigo.
Mas deixa eu te dizer uma coisa, dá uma conferida, pois tenho quae certeza que escarcéu se escreve c u ok?
Se eu estiver errada , me desculpe.
Adorei o texto!

Ogg Ibrahim disse...

Caros, aconteceu algum erro com a página que fez alguns comentários publicados desaparecer (sem que eu quisesse). Por favor, aqueles que comentaram e seus textos não estão aqui, por favor, comentem de novo. Obrigado!

Julio Cotting disse...

Sempre quando alguém aponta um "farol aceso" eu fico me questionando o porque desse tipo de comentário. Fico tentando entender a mente humana. O que há de tão espetacular ou até proibido num mamilo feminino que todos conhecemos desde nossos primeiros dias. Como pode o povo do pais do carnaval ter esse tipo de pensamento tão esdrúxulo? Parabéns pelo artigo Ogg!

Samuel Santos disse...

Olá Ogg.

Fiquei surpreso ao vê-lo recentemente na bancada do Jornal da Record, parabéns.

Você é um grande jornalista, sempre acompanho sues textos aqui no blog e no R7, você escreve textos excelentes.

Tudo de bom

Samuel Santos disse...

Ótimo texto!

A TV brasileira precisa se preocupar mais com o conteúdo transmitido.

Grande parte do que assistimos não nos acrescenta nada culturalmente, e o pior é que o brasileiro gosta de ver isso...

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