segunda-feira, 29 de março de 2010

Cuidado! O feitiço pode se voltar contra o feiticeiro.


Durante uma semana inteira, assistimos a exaustiva cobertura do julgamento dos Nardoni, agora sim assassinos confirmados da menina Isabella. Eu disse confirmados? Sim, é verdade. Também torci por essa sentença. Mas se foram eles mesmos, ninguém nunca saberá ao certo, a não ser os próprios réus. O que vimos, na verdade, foi uma vitória do improvável, a inocência deles, contra o constatado - que não havia mais ninguém no apartamento que pudesse ter feito tamanha crueldade.

Mas deixando os méritos do julgamento de lado, todos nós assistimos a uma horda de curiosos vindos de todas as partas do país, interessada em acompanhar de perto o que acontecia no fórum. Estudantes de direito e jornalistas, tudo bem, tem sua curiosidade perdoada e justificada. Agora, os demais, gente que não tem nada a ver com o caso, ficar aglomerada na porta do fórum, dia e noite, me pareceu mais um bando de vampiros a espera de um sanguinho pra chupar. O que estaria fazendo ali alguém que veio da Bahia pra nem conseguir entrar lá senão fosse apenas uma curiosidade mórbida e despropositada?

Mais uma vez, o que me parece, é a confirmação de que o brasileiro tem mesmo um desejo efervescente pela desgraça alheia, uma atração pelo deboche, uma necessidade de ver alguém se ferrar nesse país. Quer um exemplo bem grotesco? Porque as chamadas vídeo-cassetadas tem audiência? Porque, é lógico, sempre tem alguém que se ferra nelas. Porque, em final de novela, a audiência redobra quando a vilã ou o vilão são desmascarados? Porque esses programinhas sanguinários que mostram gente esfaqueada, baleada, retalhada, trucidada... tem bom público? Porque é muito fácil vibrar com a desgraça dos outros quando se está confortavelmente sentado no sofá de casa.

Acho que não só o brasileiro, mas gente do mundo inteiro, vê nesse tipo de chacota de terceiros um motivo para acreditar que sua própria vida é uma maravilha. "Putz, os Nardoni se ferraram. Ainda bem que na minha família não acontece isso". Esse tipo de coisa não me parece um desejo de que a justiça seja feita mas sim de que "eles que se ferrem, não eu".

O curioso é que não há essa mesma vibração quando algo de bom acontece, ao contrário da condenação de alguém por um crime, que nem sempre podemos considerar que seja "algo de bom". Seria melhor que não tivesse acontecido esse crime. Porque ninguém vibra, por exemplo, com notícias positivas como a queda da inflação, abertura de novos empregos, aumento do salário mínimo?

Precisamos repensar se o que nos faz feliz é vibrar porque algo bom nos aconteceu ou por algo ruim que aconteceu com os outros. Desejar ou torcer pela desgraça alheia pode ser, um dia, um feitiço virado contra o feiticeiro.

4 comentários

Marcelo Farhat disse...

Nosso pobre pais sauda os coitados, aqui quem ganha melhor q os outros tem de negar sua competencia.A " Plin Plin" teve de proibir a presenca de pobres e coitados no BBB pois eles ganhariam sempre.A Ode a miseria impera!

Carlos Rocha disse...

Infelizmente a tendência humana nos dias de hoje é essa! Culpar, justificar, transferir, negar, manipular... Tudo no intutio de não assumir responsabilidades e não entrar em contato com seus reais sentimentos! O que está faltando, na minha opinião, é o resgate de valores! O valor da educação, do companheirismo,da amizade, da compaixão, da honestidade, da humildade, da boa vontade, da simpatia, do amor, da Fé!!! Forte abraço!

viviane disse...

Já que estamos falando do caso Isabella, deem uma olhada nas revistas semanais -Veja, Época, IstoÉ- e vejam como os grandes veículos contribuem para essa baixaria que se tem hoje. Ogg, mto obgda por ter dado a sua contribuição comentando em nosso blog (força motriz). Vc ñ imagina como estou contente por você ter gostado, e mais feliz ainda por ter sido o 1º visitante a comentar (logo um profissional da área)...já estreiamos em grande estilo, rs. Obrigada

Rafael S.Thiago Hadlich disse...

Ogg é até engraçado, mas fazendo um paralelo com a sua profissão o seu texto vira um paradoxo total. Todos sabemos e você mais ainda, que a audiência do jornal que vc apresenta , das reportagens, etc..., e consequentemente o lucro é diretamente proporciaonal ao numero de desgraças, tragédias, escândalos políticos e afins que são mostrados na TV. Não sei te dizer se isso é da natureza humana, talvez seja, mas é fato que a desgraça alheia atrai a grande maioria, por óbvio, como você mesmo frisou, estando todos sentados e confortáveis em sua respectivas casas. Sou de Joinville/SC e acompanho o seu trabalho desde a época em que você cobriu as enchentes por aqui. Um abraço. Rafael.

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